sábado, 25 de outubro de 2008

Mídia: a pesquisa guia a notícia?

A crítica mais comum feita às pesquisas eleitorais – além da eterna desconfiança sobre a sua credibilidade – é a de que a sua divulgação, principalmente na reta final das eleições – influi nas urnas.
Conforme o que indicarem os números das sondagens, o eleitor poderá trocar o candidato com quem se mais se identifica por outro com chances presumivelmente maiores de derrotar aquele que lhe parece o pior de todos – o voto útil.
Nada de errado com isso. O voto calculado com base nas tendências reveladas pelos levantamentos – supondo-os confiáveis – é tão legítimo, “consciente”, quanto o voto no candidato que se preferia de saída.
Sabendo em que pé está a corrida, o eleitor tem a oportunidade de fazer uma escolha mais elaborada: ou se atém ao seu preferido, mesmo que aparentemente fora do páreo, por uma questão de princípio, e ponto final, ou – dependendo do que considerar a questão essencial em jogo –, votará para barrar o candidato a quem mais rejeita.
O problema é outro tipo de influência potencial das pesquisas. Nesse caso, o influenciado seria o jornalismo.
Um trabalho do Pew Research Center, dos Estados Unidos, citada pela Folha de sexta-feira (24/10), concluiu – e não pela primeira vez – que a posição de um candidato presidencial nas pesquisas afeta o modo como o noticiário o trata.
Analisando a cobertura das campanhas de Barack Obama e John McCain, entre 8 de setembro e 16 de outubro, quando foi ficando mais nítida a vantagem do democrata sobre o republicano nas sondagens, o instituto contou 36% de matérias positivas para o primeiro e 14% para o segundo (e 29% negativas para o primeiro e 57% negativas para o segundo).
O Pew é um centro de estudos sério e competente. Mas ainda assim não é de excluir que possa ter confundido correlação com causação, como dizem os estatísticos. Nem sempre, quando dois fatos se relacionam, um é decorrência do outro.
É bem provável que o candidato que lidera as pesquisas receba mais atenção da mídia do que o outro (no caso de uma disputa mano-a-mano). Atenção, no entanto, pode significar um escrutínio mais rigoroso de seus atos e posições, em vez de mais complacência.
A proporção bem maior de matérias favoráveis a Obama (e desfavoráveis a McCain) talvez não se explique pelo crescimento da popularidade do democrata nas pesquisas. O comportamento da imprensa e o desempenho dele nos levantamentos podem, isso sim, ser consequência de um terceiro fator – a reação de McCain à crise financeira, considerada desastrosa pela quase unanimidade dos comentaristas (mesmo entre os republicanos).
Por sinal, o estudo do Pew registra que a diminuição das reportagens positivas sobre McCain se acentuou depois do desmoronamento de Wall Street.
E é bom não esquecer que a Obamania vem de muito antes de sua ascensão nas sondagens. Aliás, não foram poucos os comenaristas americanos que se perguntaram durante muito tempo por que a onda Obama não se refletia nos números.
Evidentemente, nada disso anula, em qualquer eleição de qualquer país, um cenário do tipo bola de neve: à medida que um candidato se destaca nas pesquisas, tanto mais a mídia se ocupa dele, tanto maior a sua oportunidade de aparecer bem na fita, o que se refletirá nas pesquisas seguintes e no tratamento da imprensa, e assim sucessivamente – pelo menos enquanto não aparecer um fato novo capaz de quebrar o encanto.
Terá sido o que aconteceu em São Paulo com a candidatura Kassab? Deu para ver a olho nu que o seu espaço na imprensa foi aumentando à medida que ele passou a ameaçar a posição de Alckmin nas pesquisas como o mais provável adversário de Marta no segundo turno, o que só se acentuou quando ficou nítido – e não só nos números, mas no clima da campanha – que vinha uma “onda Kassab” na cidade.
No Rio, é bem possível que o avanço de Gabeira, que o levaria ao segundo turno, tenha aberto o caminho para ele receber da imprensa tratamento VIP – embora ele não tenha sido poupado dos efeitos do flagra (do Globo) da conversa em que ele dizia que a vereadora Lucinha tinha uma “visão suburbana”.
O ponto, de todo modo, é que a eventual influência dos levantamentos de opinião sobre a cobertura das campanhas deve ser estudada em cada ciclo eleitoral. E os jornalistas que se cuidem para não ser acusados depois, com base em fatos, de levantar a bola para esse ou aquele candidato por sua dianteira nas pesquisas.

Fonte:
Observatório da Imprensa

2 comentários:

joao Assis disse...

Sandra,
Eu tenho muitos questionamentos quanto aos institutos de pesquisa,não acredito na seriedade deles,nunca fui entrevistado nem conheço ninguem que foi,quanto á imprensa,essa trata diretamente de seus interesses,vai para onde os ventos dos institutos sopram,emfim,formam um sistema extremamente viciado,COLLOR não deixa ninguem mentir,foi criado do nada,pela midia e os institutos,eu ao menos perdi uma poupança que tinha,quando digo perdi,é porque realmente perdi,quando fui restituido não consegui fazer nada com as parcelas,tenho amigos que perderam tudo,casa,caminhão,etc,mas voltando ao assunto,acredito que esse tema deva ser debatido á exaustão,até que obtenhamos um consenso,pois atualmente,sou contra isso,pode até ser que eu mude de idéia,mas preciso ser convencido da austeridade deles.
Parabéns pela postagem que traz um assunto de extrema importância para debatermos.
Um forte abraço,amiga.

nanuni--kokoritu disse...

Também tenho um pé atrás em relação a isto.